Quem Decide o Quê num Projeto? A Armadilha da Responsabilidade Partilhada
O custo real da ambiguidade de responsabilidades
A maioria dos projetos define o que tem de ser feito. Poucos definem, com o mesmo rigor, quem toma as decisões sobre o que tem de ser feito.
Assim, a consequência direta é a paralisia por consulta, ou seja, quando não está claro quem pode aprovar uma decisão, cada passo exige confirmação. Juntam-se mais pessoas às conversas, cria-se um ciclo de validações que ninguém pediu, mas que toda a gente sente ser necessário — porque sem autoridade definida, ninguém quer ser o único a decidir.
Com efeito, em projetos transversais — onde participam pessoas de diferentes departamentos, com diferentes linhas de reporte — este problema agrava-se. Um entregável que cruza três áreas e onde cada responsável de área sente ter veto sobre o resultado pode facilmente ficar retido indefinidamente. Não por conflito aberto, mas por ausência de quem efectivamente decida.
Responsabilidade partilhada é responsabilidade de ninguém
Existe uma falácia muito comum na gestão de projetos: a ideia de que, se todos são responsáveis, a responsabilidade está bem distribuída. Na prática, acontece o contrário: quando toda a gente é responsável por algo, ninguém sente que tem o papel de garantir que esse algo acontece.
No entanto, o problema não é de vontade — é de estrutura. Uma pessoa que sabe que é a responsável por um entregável age de forma diferente de uma pessoa que é uma das responsáveis. A primeira toma iniciativa quando algo fica parado, enquanto a segunda espera que outra pessoa o faça.
É aqui que a definição clara de papéis — antes de começar o trabalho, não quando os problemas aparecem — faz a diferença entre um projeto que avança e um que fica preso em conversas.
A Matriz RACI: uma ferramenta simples para uma questão complexa
A Matriz RACI é uma das ferramentas mais práticas disponíveis para clarificar responsabilidades. O nome é o acrónimo de quatro papéis distintos que qualquer entregável ou decisão de projeto deve ter atribuídos: “Responsible” (quem executa o trabalho), “Accountable” (quem responde pela correcta execução, aprova e decide), “Consult” (quem deve ser ouvido antes de avançar e/ou durante a execução) e “Inform” (quem deve ser atualizado depois de uma decisão tomada ou o trabalho terminado).
A distinção entre “Responsible” e “Accountable” é a mais frequentemente ignorada — e a mais importante! São papéis diferentes e não devem recair, sistematicamente, na mesma pessoa. Quando coincidem sempre, o gestor de projeto acumula trabalho operacional e poder de decisão ao mesmo tempo, o que cria estrangulamentos. Quando estão separados sem coordenação, o “Responsible” produz, mas nunca sabe quando tem luz verde para avançar.
Como aplicar sem criar burocracia desnecessária
Um dos argumentos mais comuns para não criar uma Matriz RACI num projeto é o tempo que leva a construir. Porém, isso depende da dimensão do projeto. Para projetos pequenos e equipas estáveis, uma conversa de arranque onde se clarifica quem decide o quê pode ser suficiente. Para projetos maiores ou transversais, construir uma matriz completa é trabalho que se paga rapidamente — cada hora investida na clarificação inicial poupa múltiplas horas de alinhamento e retrabalho a meio do projeto.
Algumas regras práticas que simplificam a implementação:
· cada entregável ou linha de trabalho tem de ter sempre “Accountable” e “Responsible”
· cada entregável ou linha de trabalho só pode ter um e só um “Accountable”
Clareza antes da complexidade
A maioria dos problemas em projetos não são técnicos. São problemas de clareza — sobre quem faz, quem decide, quem precisa de ser ouvido e quem precisa de ser informado. A Matriz RACI não resolve estes problemas por magia: resolve-os porque obriga a ter esta conversa no início, quando ainda é fácil de ter, em vez de a adiar para o momento em que o projeto já está em dificuldades.
Um projeto bem governado não é um projeto sem conflito. É um projeto onde, quando surge conflito, existe uma estrutura clara para o resolver!